quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Relatório para FUNARTE - Capítulo II


Palavras Criadoras é um projeto novo, embasado em anos de trabalho com os povos indígenas. Um sonho antigo, com raízes que se fortaleceram ao longo do tempo até se tonar realidade com o apoio da Bolsa Funarte de Circulação Literária.

Nos quase 30 anos de trabalho com organizações e comunidades indígenas acompanho de perto os graves problemas decorrentes do desconhecimento,  dos preconceitos e estereótipos que afastam o Brasil dos povos nativos que compartilham este mesmo território.

Durante muitos anos o jornalismo foi a ferramenta que utilizei para contribuir com a luta desses povos por direitos, reconhecimento, participação. Num segundo momento de minha vida profissional passei a dedicar meu tempo e conhecimento na construção de conteúdos e produtos culturais realizados em parceria e/ou com a iniciativa das comunidades indígenas.

Produção de CDs, de documentários, de exposições, cursos, palestras, muitos foram os recursos para ajudar nessa aproximação entre os povos e as culturas. A mais recente ferramenta que tomei como aliada foi a literatura.

Uma pesquisa sobre toda produção de autores indígenas publicada no Brasil, sobre o interesse das editoras e os critérios para publicação e divulgação dessa literatura,  foi o ponto de partida para o trabalho. Mas faltava o contato com o público, com o povo brasileiro que desconhece os povos indígenas. Faltava ouvir as pessoas simples de cidades distantes e carentes, os educadores que têm em suas mãos a grande responsabilidade da transmissão do conhecimento e formação das futuras gerações, a população de lugares com forte presença da herança indígena.

A escolha dos municípios e locais para receberem o projeto levou em consideração a história local, a relevância cultural e a herança indígena, acreditando que a aproximação com a literatura nativa pudesse contribuir também para a afirmação da identidade e auto-estima do público alvo, para o reconhecimento e valorização de sua história, conhecimentos e cultura.

A Bolsa de Circulação Literária me permitiu essa viagem, o aprofundamento dessa pesquisa, a vivência. Aproximação, reflexão, revisão de posturas, desafios, quebras, muita tristeza, em alguns momentos, muita alegria em outros.  As oficinas, principalmente as realizadas em Barra do Ribeira, Cananéia e no Cariri, contribuíram com informações preciosas sobre a questão da identidade, do reconhecimento da herança indígena e também sobre a possibilidade de convivência entre os povos, superando as diferenças e os conflitos impostos pelo modelo de desenvolvimento.

Em Juquitiba a principal contribuição para o projeto foi o contato com os educadores, com o desconhecimento, com suas dúvidas e preconceitos, o que permite agora sistematizar esse resultado e subsidiar projetos e iniciativas futuras.

O projeto permitiu ainda a construção do blog para postagem de informações sobre a produção literária indígena, divulgação da literatura e dos autores indígenas e de conteúdos que contribuam para a valorização da cultura tradicional.

Com a Bolsa, o projeto foi alimentado e vingou , trouxe novos desafios e desejos. Todo conhecimento adquirido ao longo destes últimos meses precisa ainda ser processado, amadurecido, disponibilizado para gerar outras iniciativas, novos projetos.

Benefícios ao projeto:
•    Contato direto com o público, trocas, vivência
•    Novo conteúdo gerado pelas pesquisas e pelas atividades práticas com o público
•    Levantamento de demandas, necessidades de informação para subsidiar educadores
•    Abertura de novos canais de comunicação com grupos, associações e instituições
•    Perspectivas de continuidade do projeto
•    Subsídios para construção de novos projetos 
•    Manutenção e ampliação do blog

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Literatura indígena em publicação argentina



Compartilho aqui o link para uma matéria publicada na Argentina sobre meus livros e trabalho.

Diego Oscar Ramos, o autor,  é um jornalista argentino e o conheci há um ano quando me procurou para uma entrevista sobre o músico argentino Ramiro Musotto.
Ramiro viveu no Brasil muitos anos. Percussionista maravilhoso, apaixonado pela música brasileira, Ramiro tocou junto com os grandes artistas brasileiros e se dedicou também a um trabalho pessoal. O conheci em 2001 quando trabalhava no seu álbum Sudaka e queria incluir uma faixa com música Xavante. Trabalhamos juntos nessa ocasião e depois em 2007 quando criou seu álbum Civilização e Barbárie onde há uma faixa em parceria com o povo Guarani. Fizemos também a produção da presença do coral Guarani na cerimônia de encerramento dos Jogos Panamericanos.
Ramiro faleceu no ano passado mas deixou uma obra maravilhosa, um exemplo de respeito aos povos indígenas e de parcerias possíveis entre a música tradicional e a música popular. Deixou também uma rede de amigos conectados !
A matéria publicada na argentina é fruto dessa grande rede!
O autor, Diego, se encantou com os livros Entre Dois Mundos e Povo Verdadeiro e fala de meu trabalho com os povos indígenas.

Boa leitura!

http://historiasysentidos.blogspot.com/2011/08/angela-pappiani.html

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Fechando um ciclo



O tempo passou muito rápido e o período de seis meses da Bolsa de Circulação Literária da Funarte voou.... Agora em julho, encaminhamos o relatório final das atividades.
Esse apoio foi fundamental para o trabalho de pesquisa e organização de informações sobre a literatura indígena e também para aproximação com o público dos municípios contemplados pelo projeto.
Acredito que, como eu,  todos os outros bolsistas puderam enriquecer suas bagagens literárias e encantar o público com as histórias e belezas que as palavras criadoras carregam.

Mas o projeto não termina aqui! Tem muita informação ainda para postar aqui no blog e atividades que vão acontecer mesmo depois de terminado o apoio da Funarte.

Quero compartilhar com todos vocês as conquistas e descobertas do projeto, as alegrias e a vontade de que a viagem pela literatura indígena esteja só começando!

 
 O relatório enviado à Funarte, em capítulos....

O Projeto Palavras Criadoras foi realizado de fevereiro a junho de 2011, em cinco municípios dos Territórios da Cidadania Vale do Ribeira e Cariri, com um público total em torno de 1600 pessoas.
As oficinas de Literatura Indígena aconteceram em duas fases distintas no Município de Juquitiba, nos meses de março e maio, para um público de 732 pessoas, sendo 237 professores e coordenadores educacionais, e 495 crianças e jovens do ensino infantil ao fundamental II.
A grande maioria dos professores tem entre 23 e 45 anos, são nativos da cidade ou vivem em Juquitiba há muitos anos.  95% têm ensino superior, com formação em faculdades da região. O público jovem atendido tem entre 04 e 16 anos, em sua maioria são moradores da zona rural do município. Entre as atividades culturais a que têm acesso, estão principalmente assistir televisão,  cultos religiosos e o circo. Apesar de muitas pessoas incluírem o cinema nas fichas de avaliação, em conversas informais admitiam a grande dificuldade e o alto custo para o deslocamento até São Paulo ou Taboão da Serra, onde há salas de cinema. A grande maioria nunca entrou num teatro.
O município de Juquitiba, Território da Cidadania Vale do Ribeira, é muito carente, não tem indústrias ou comércio de maior porte. Vive basicamente da economia rural com agricultura familiar e atividades voltadas ao turismo, como casas de campo, pesqueiros, pousadas e esportes radicais.
Segundo a Secretaria de Educação, pela proximidade com São Paulo e pela grande carência de equipamentos culturais e educacionais, o município de Juquitiba tem ficado fora do roteiro das atividades culturais e educacionais ofertadas por programas governamentais ou iniciativa privada.



 

O segundo município a receber o projeto foi Iguape, Território da Cidadania Vale do Ribeira, mais precisamente a comunidade de Barra do Ribeira, a 25 km do centro da cidade. O público total das atividades ali realizadas foi de 254 pessoas, sendo 229 crianças e jovens, entre 04 e 18 anos, e 25 adultos.  Entre o público adulto havia professores, coordenadores educacionais, funcionários das escolas e membros das Associações dos Moradores da Juréia e Jovens da Juréia, parceiros do projeto. Quase a totalidade desse público adulto tem ensino superior.
 Essa localidade abriga uma população caiçara que ocupa a região há pelo menos 200 anos e absorveu muito do conhecimento indígena sobre o ecossistema local, modo de vida e expressões culturais. Famílias tradicionais na região tentam manter sua tradição apesar da grande pressão sobre esse território nas últimas décadas. Especulação imobiliária e a instalação do Parque da Juréia, há cerca de 20 anos, forçaram deslocamentos da população e grande perda econômica e cultural.
Nessa localidade, que tem cerca de 4 mil habitantes, não há equipamentos culturais. Nos finais de semana e férias essa população aumenta em até cinco vezes e a única opção de diversão são os bares locais. Também não há acesso à internet. Uma lan house e algumas pousadas têm acesso precário por antena. O sinal de celular também é péssimo, com poucas operadoras funcionando apenas em alguns pontos específicos do local. As Associações tentam instalar um tele centro em sua sede recém construída e têm a proposta de levar outras atividades culturais como cinema e teatro, além de incentivar as práticas tradicionais como a confecção de instrumentos e as festas religiosas. Na sede da Associação está sendo instalada uma oficina de marcenaria para incentivar a produção do artesanato, uma das poucas fontes de renda da comunidade, além da pesca e do trabalho nas pousadas e casas de veraneio.



A terceira atividade do projeto aconteceu na cidade de Cananéia, Território da Cidadania Vale do Ribeira, com um público total de 63 pessoas, entre dirigentes de Pontos de Cultura das cidades de Iguape, Cananéia, Pariquera- Açu, Registro e Miracatu, multiplicadores, ativistas ambientais, educadores, com idades entre 20 e 60 anos, a grande maioria com ensino superior.
Apesar da formação superior, do ativismo cultural e ambiental, e do papel social e político dessas pessoas, o conhecimento sobre a realidade e cultura dos povos indígenas era muito pequeno, muitas vezes carregado de preconceitos e estereótipos. O encontro foi dos mais produtivos e interessantes, com a possibilidade de abordar muitos aspectos, questões polêmicas e levar para o conhecimento desse público a beleza das narrativas tradicionais e da literatura indígena publicada.
O Município de Cananéia é um importante pólo turístico, recebendo um grande público interessado na história da cidade, nas belas praias e parques protegidos. Não possui cinema nem teatro, mas tem uma intensa atividade cultural e artística sustentada por grupos, ONGs, iniciativas privadas e públicas.
A quarta atividade aconteceu na cidade de Juazeiro do Norte, Ceará, Território da Cidadania do Cariri. O público total das oficinas foi de 112 pessoas, sendo  58 crianças entre 06 e 10 anos e 56 educadores, entre 20 e 50 anos, estes todos com ensino superior. 



 A cidade de Juazeiro do Norte, apesar de localizada no sertão do Ceará, tem uma boa estrutura que vem melhorando na última década com a instalação de indústrias, comércio, serviços, escolas, universidades e centros culturais importantes. A população tem acesso a bibliotecas, cinemas, teatro, apresentações musicais, festivais culturais internacionais promovidos pelo SESC e pelo Centro Cultural do Banco do Nordeste.
Apesar de todas as facilidades e oportunidades, da mesma forma que em outros locais, o desconhecimento sobre a cultura indígena, os preconceitos e estereótipos se repetem, afastando esse público do contato com a diversidade cultural do país.
A penúltima etapa do projeto aconteceu no município de Nova Olinda, Território da Cidadania do Cariri, a cerca de 65 km de Juazeiro do Norte. Nessa cidade o público total do projeto foi de 260 pessoas, entre jovens e educadores dos municípios de Nova Olinda, Barbalha e Santana do Cariri.  25% com curso superior e a grande maioria cursando o Fundamental II ou curso profissionalizante. As crianças do projeto Casa Grande, que também participaram da última oficina, têm entre 04 e 14 anos, cursando educação infantil e fundamental.
Apesar de a Fundação Casa Grande desenvolver um importante trabalho educacional e cultural na região, poucas pessoas dos municípios vizinhos freqüentam as atividades promovidas ali. O acesso à internet é precário e não há outros equipamentos culturais nesses municípios da região. Essa instituição oferece atividades de arqueologia, pesquisa, teatro, cinema, música, literatura, rádio e TV, cursos, oficinas, palestras, em sua maioria gratuita e de livre acesso.





segunda-feira, 23 de maio de 2011

Última atividade em Juquitiba



12 graus em São Paulo, madrugada gelada e chuvosa.
O primeiro destino foi a Secretaria de Educação, no centro de Juquitiba onde a Coordenadora Patrícia me esperava para me acompanhar até a escola onde teríamos a primeira oficina do dia numa sala multiseriada com crianças entre 8 e 13 anos. A Escola Municipal Bairro da Jacuba  é muito pequena. Uma sala apenas num quintal enorme, com horta bem sortida, bananeiras e muito espaço para as crianças brincarem. Na cozinha, o almoço já estava sendo preparado e um bolo gostoso com café nos esperava.







As crianças e a professora prepararam com orgulho uma canto da sala, onde está a biblioteca, com a maquete que fizeram na comemoração do dia do índio, em 19 de abril, alguns objetos indígenas que ganharam de presente na visita ao espaço Toca da Raposa e alguns livros de temática indígena. Estavam anciosos, esperando por nossa conversa. São crianças de uma área rural do município que viajam às vezes mais de uma hora para chegarem à escola onde têm que se dividir numa mesma sala de aula, para o aprendizado das matérias que vão do 2o. ao 5o. ano. Essas professoras são heroinas. Conciliar assuntos tão diferentes e controlar crianças de faixas etárias tão distantes é uma tarefa estressante. Foi uma conversda ótima, com participação das crianças, muitas perguntas e espanto com as informações novas para eles. Adoraram o vídeo onde as crianças Ikpeng se apresentam, principalmente os trechos onde os meninos fazem flechas e aviões. As meninas gostam das pinturas corporais e se espantam com a força das garotas da aldeia.
 
 







Saindo do bairro da Jacuba, seguimos pela mesma estrada de terra enlameada até a escola Altamiro Pinto de Moraes, no bairro Juquiazinho. Esta, muito maior, com muitas salas e centenas de alunos do pré ao 9o. ano. Essa escola sofreu um incêndio criminoso no começo do ano que destruiu a biblioteca, secretaria, sala de professores e diretoria. Perderam todos os documentos da escola, os materiais e livros e ainda os equipamentos comprados com sacrifício, com a colaboração da comunidade através de bingos e festas. Um grande choque para todos que tentam agora se reerguer, em espaços improvisados mas com muita garra.
















A primeira oficina, ainda no período da manhã, foi para jovens do 9o. ano. Adolescentes com desejos e sonhos como qualquer outro adolescente, enfrentando uma dura realidade: a distância da casa à escola, a perspectiva de terem que ir mais longe ainda para seguirem os estudos no próximo ano, a carência material e muitas vezes problemas familiares sérios que afetam suas vidas. Mesmo assim, muitos desses jovens se destacam e conseguem seguir os estudos, até com bolsas para escolas particulares em Juquitiba por seu bom desempenho e comportamento. Nessa oficina, os assuntos mais abordados foram os rituais de passagem nas aldeias, com suas provas.

 


No período da tarde juntamos duas salas do 4o. e 5o. ano. Uma turma de cerca de 70 alunos entre 10 e 13 anos, muitos descendentes de indígenas com curiosidades e muito interesse.


terça-feira, 3 de maio de 2011

De volta a Juquitiba


No dia 4 de maio, o projeto Palavras Criadoras voltou a Juquitiba. Depois do trabalho com cerca de 200 professores da rede municipal de ensino,  chegou a hora de levar a literatura indígena para as crianças e jovens das escolas municipais de Juquitiba.

A programação começou com as escolas Fonte das Águas Claras e Raízes do Pau Brasil. No dia 6, foram visitadas as escolas Terra Nova, Paulino Ribeiro e Recanto das Caipunas. No dia 09 as atividades aconteceram nas escolas Jaime Alypio de Barros, Tereza T. Comolatti e Manacás dos Soares. No dia 11, encerrando essa fase do projeto, as oficinas foram realizadas nas escolas Bairro da Jacuba  e Altamiro Pinto de Moraes.





Dia 04 de maio amanheceu bem frio em São Paulo. Para chegar à escola Fonte das Águas Claras às 7h da manhã, peguei a estrada muito cedo, antes das 6hs. quando o dia estava apenas surgindo. Depois do município de Itapecerica da Serra, quando a área urbana vai ficando para tráz  e a Mata Atlântica vence por alguns momentos a rigidez dos tijolos e cimentos, a paisagem muda, o ar muda, é como estar muito distante de São Paulo, há apenas 30 minutos da Av. Francisco Morato .

A neblina cobria as montanhas ao longe, contrastando o verde escuro das árvores ainda pouco iluminadas com o branco das nuvens. Atrás de min, no leste, o sol começava a pintar o céu de cor de rosa e lilás. Como diria minha netinha Moa, um céu de menina começava a alegrar o dia.

A Escola Fonte das Águas Claras fica no bairro Palmeiras, no km 318 da Regis Bitencourt, à direita da estrada, um pouco antes da entrada para o centro de Juquitiba. Um lugar tranquilo, com ruas calçadas e casas térreas com jardins e muitas árvores. Foi fácil localizar a escola. Uma avó andava calmamente pela rua, acompanhando o netinho, todo agasalhado, com toca e luvas. Ela levava a mochila, ele tagarelava e saltitava logo à frente.. A escola estava logo ali, no final da, com a mata crescendo atrás, vigorosa e bela.




Uma fonte em alvenaria enfeita o páteo da escola, muito ampla e agradável. As professoras, que já me conheciam da atividade na Secretaria de Educação, esperavam. Juntamos duas classes do 5o. ano para a atividade da manhã. Uma turminha linda e animada, cheia de perguntas. As fotografias lindíssimas de Helio Nobre foram enfileiradas sobre bancos, no pátio da escola e chamavam muito a atenção das crianças. O vídeo Das Crianças Ikpeng para o Mundo, produzido pela ong Vídeo nas Aldeias foi o material que escolhi para ilustrar nossa conversa com as crianças. Uma forma de apresentar uma aldeia indígena para os alunos da cidade ou de áreas rurais, como nesse caso, sob o olhar das crianças indígenas. Com graça, humor, leveza, brincadeiras e muitos risos. Fórmula de sucesso garantido!! Os livros, as fotografias e a experiência de conhcer uma aldeia pelo vídeo causam grande impacto nas crianças. Eles ficam curiosos, querendo ler, querendo saber mais. O que também incentiva os professores a buscarem mais informações sobre os povos indígenas.
Depois de um chá quente para animar ainda mais o dia, me despedi dessa turminha. Uma nova escola me esperava.






No mesmo dia 4 de maio, a oficina do projeto Palavras Criadoras visitou a escola Raízes do Pau Brasil, no centro de Juquitiba. Mais um belo nome de escola que valoriza as belezas e riquezas naturais de Juquitiba. No Raízes o trabalho foi com quatro classes de alunos de 5a. série, duas no período da manhã e mais duas à tarde.A escola é bem grande, com muitas classes e fica bem no centro da cidade, numa colina com bela vista.

















Dia 6 de maio, novamente às 7 horas da manhã cheguei à escola Terra Nova, no Distrito dos Barnabés, há uns 8 km a frente, depois do centro de Juquitiba. Esse bairro é bem movimentado, com comércio local, uma pequena igreja na praça central. A escola fica um pouco escondida atrás da creche municipal, numa rua tranquila. É uma escola pequena e a oficina foi com uma turma do 2o. ano, menor em idade e número de alunos.




Ainda no período da manhã, uma outra oficina aconteceu na escola Paulino Bueno, no bairro da Palestina. Esse bairro abriga uma comunidade de muitos moradores, com sítios, pousadas e espaços de atividades de esportes radicais Bem equipada, no alto de uma colina com um lago próximo, a escola está bastante integrada à comunidade.


 
Um mural bastante criativo e uma sala com a produção de artesanato das crianças e pais reforça a identidade dessa escola. As professoras fazem um belo trabalho de conscientização das crianças e buscam atividades criativas que mobilizam toda a comunidade. Na sala de aula, os alunos finalizavam os presentes de dia das mães: carteiras feitas de embalagem tetrapark recobertas de tecidos com um belo acabamento. Até eu queria ganhar uma carteira daquelas!!!!


A oficina foi bastante animada com participação ativa de todos os alunos das duas classes de 5o. ano. As crianças tinha perguntas prontas, anotadas em seus cadernos, e levantaram muitos assuntos. Fizeram também uma pesquisa na bilbioteca da escola e trouxeram os livros de temática indígena para comentarmos juntos. Fiquei surpresa com a dedicação das professoras e alunos e muito feliz com o interesse das turmas. Livros de Daniel Munduruku, Ciça Fitipaldi, Kanatyo Pataxó, Yaguarê Yaman estavam ali, sendo manuseados pelos alunos, levantando questões. Uma bela surpresa!!! Um belo trabalho deselvolvido pela professora Santina!


No período da tarde fomos para a escola Recanto das Caipunas, no bairro das Caipunas. Uma escola bem pequena, num local afastado da cidade. Um bairro bem rural com poucas moradias. A estrada é cercada de muita mata e sítios com uma paisagem belíssima.

A previsão era da oficina acontecer com uma sala multiseriada, do 2o. ao 5o. ano, mas decidimos juntar todas as turmas, desde o pré, e a sala se encheu de rostinhos que iam dos 4 aos 13 anos. Os pequenos prestavam muita atenção, arregalavam os olhos de curiosidade, faziam perguntas, interagiam com as histórias e os meus comentários. Foi uma delícia compartilhar com eles o meu tempo! Foi divertido, gostoso e um aprendizado enorme para mim. As professoras participaram ativamente, ajudando a complementar informações úteis para as turmas.





Dia 9 de maio foi mais um dia de muita atividade nas escolas de Juquitiba. Um dia frio, com períodos de chuva. As estradas ficaram enlameadas e o ar muito úmido aumentava a sensação de frio. A primeira parada foi na escola Jayme Alípio de Barros, no bairro das Laranjeiras para oficina com crianças de uma sala multiseriada de 4º.e 5º. anos.

Uma das professoras conhece a aldeia Guarani do bairro do Jaraguá, em São Paulo. Já esteve lá com a congregação religiosa de que faz parte. Como tantas outras pessoas que visitam ou freqüentam as aldeias do povo Guarani, ela também nada sabe sobre a cultura desse povo. Sua riqueza, diversidade, idioma, narrativas. Uma atitude normal de quem visita o povo Guarani  é pensar que aquele local é uma “favelinha” e que aquelas pessoas são apenas gente pobre, sem pensamento, sem cultura, sem sonhos e muita história. Os visitantes levam roupas usadas, alimentos e sua religião. Mas não ouvem o que os Guarani têm para dizer. Suas verdadeiras necessidades que são o respeito da sociedade e dos governos à sua identidade, direito à terra, à cultura e à vida digna, dentro de seus costumes e sonhos.






A segunda escola visitada no dia 9 foi a Tereza T. Comolatti. Uma escola enorme com ótima estrutura física construída e doada à prefeitura pelo Grupo Comolatti que foi dono da fazenda de plantio de eucalipto onde a escola está localizada. A estrada até a escola é muito movimentada. Caminhões puxam toras de eucalipto o tempo todo. Em alguns pontos ainda existe mata atlântica fechada e a sensação é de que eu estava em plena Amazônia, vendo os caminhões levarem a riqueza da biodiversidade para transformar em madeira ou outros produtos.
Mais uma sala multiseriada de 4º. e 5º. anos. O professor Sérgio, que participou da formação na Secretaria de Educação em abril, contribuiu muito com a oficina, levantando assuntos com a classe. Como sempre, o vídeo encantou as crianças que perceberam algumas semelhanças na com as brincadeiras das crianças da aldeia. Nessas áreas rurais do município as crianças ainda brincam no rio, têm contato com casas feitas de pau a pique e cobertas de sapé, com objetos feitos de cipó ou palha, com armadilhas para pescar. Percebem a herança indígena na sua vida cotidiana.


A última oficina, no período da tarde, aconteceu na escola Manacás dos Soares, no bairro dos Soares. Esta escola foi construída em mutirão, tem quadra coberta, teatro, bons equipamentos.  É um belo exemplo do que uma boa administração aliada à participação ativa da comunidade pode gerar. O diretor Oscar apresenta com orgulho as conquistas da escola e acompanha de perto a oficina que juntou crianças dos 5 aos 13 anos, professores e outros funcionários.
Muitas perguntas, muitas dúvidas e  principalmente a consciência do quão distante está o povo indígena da realidade da escola brasileira.







quarta-feira, 27 de abril de 2011

Última atividade em Nova Olinda

Chegando na Casa Grande/ Nova Olinda




 A última atividade do projeto Palavras Criadoras em Nova Olinda aconteceu na sala principal da Casa Grande, entre o altar que reverencia os santos e protetores dos católicos, as imagens da arte rupestre do Cariri, as lendas colhidas ao longo dos séculos entre os moradores locais.


 


Nesse espaço mágico e conciliador convivem em plena harmonia Jesus Cristo, Padre Cícero, a mãe d’água e outros seres mágicos que habitam o castelo encantado, imagens de santos, grandes panelas de barro e cachimbos cerimoniais confeccionados há séculos, talvez milhares de anos. Os objetos em cerâmica e as pinturas rupestres encontrados com grande fartura nessa região estão ainda sendo datados.

Entrada da Casa Grande e do Memorial do Homem do Cariri

Crianças brincam no parque da Casa Grande


As crianças e jovens que participam dos projetos da Casa Grande estavam ali, sentados no chão, a minha volta, com curiosidades e perguntas sobre a arte indígena, sobre a música, a literatura, as histórias, os ritos de passagem que marcam os jovens nas aldeias. Falamos também do cerrado do Cariri, das frutas e das árvores do lugar, da magia e da beleza da natureza.
Com essa conversa gostosa e animada encerrei minha permanência em Nova Olinda, com alegria pelo dever cumprido, mas ao mesmo tempo já com saudades do lugar e das pessoas.
Na manhã seguinte aproveitei um tempo livre para visitar Mestre Expedito Seleiro, grande conhecedor e mantenedor da tradição e arte em couro, com suas sandálias, bolsas, roupas e celas maravilhosas! Em minhas visitas anteriores ao Mestre estive sempre acompanhada de grupos indígenas numerosos que participavam do projeto Rito de Passagem no Cariri, durante a Mostra SESC Cariri de Cultura. Desta vez, levei abraços do povo Xavante para o mestre e a mensagem de que estão vendo na aldeia a novela Cordel Encantado da rede Globo com “a tribo” de Seu Expedito...
Quero agradecer a acolhida na Casa Grande por Rosiane e Alemberg, ao carinho e empenho de Samuel na organização das oficinas e sua mãe Dona Irenice que me hospedou em sua casa, ao outro Samuel que me acompanhou em todas as atividades, ao Lucas que fez as fotografias e imagens em vídeo das oficinas, ao João Paulo e Helinho.
E a todas as crianças e jovens dessa Casa maravilhosa. Que continuem nesse bonito caminho.